Oi, de novo. Antes de começar, queria mandar um abraço pro meu amigo Rafael Busmayer, que se disse curioso pra saber como a história continuava.
(Preciso criar introduções melhores pra estes textos…)
Enfim, de volta ao assunto.
Quando temos um roteiro bem redondinho, nós três (o Marcelo, o Welligton e eu) sentamos juntos pra fazer o storyboard do vídeo — isso se aplica ao Enraizando e também aos demais trabalhos de vídeo e/ou animação aqui do Rizoma.
Parêntese rápido pra explicar o que é um storyboard: Como eu mencionei no texto anterior, é algo próximo a uma história em quadrinhos, onde são definidos os planos/enquadramentos das cenas de uma determinada obra audiovisual.

Porém, ao contrário de uma HQ, que pode ter quadrinhos verticais, redondos, de página inteira, e por aí vai, o storyboard já segue a razão de aspecto (o “formato de tela”, pra simplificiar) pretendida para a versão final do vídeo/filme que será produzido.
Tudo bem até aqui?
Apesar de o ilustrador oficial/de plantão aqui no Rizoma ser este que vos escreve, não costumo ser eu a fazer os storyboards do Enraizando. É mais ou menos a mesma situação do “roteiro publicitário”, que comentei no texto anterior: se teremos que mostrar para o cliente, imprimimos a folha com os quadros, e aí, sim, eu desenho tudo bem bonitinho para depois escanearmos e enviarmos.
Mas quando é só pro nosso uso interno – e especialmente no caso do Enraizando –, eu deixo essa tarefa pro Welligton, por alguns motivos bem simples:
- A chance de ele implicar com a composição de alguma tela/cena tende a cair, já que ele participou da concepção visual dela;
- Não é sempre que eu tenho paciência pra isso;
- Eu demoro muito pra fazer, porque dizem que eu “detalho demais” — e isso será um tema constante nesta série de textos;
- Reconheço que, às vezes, eu fico um pouco preso com relação à representação gráfica de certos conceitos, e às vezes ele traz boas ideias pra solucionar alguns desses problemas — em compensação, há ocasiões em que eu tenho que podá-lo, porque ele pediu algo inviável.
Isto posto, enquanto boa parte das nossas etapas de produção pode ser feita por cada um de nós separadamente, esta é a única que nós sempre insistimos em fazer de forma coletiva.
Pra começar, é essencial que o ilustrador e o animador (normalmente, eu faço os dois papéis) estejam presentes neste estágio, pra que entendam o que foi imaginado em cada cena e não haja nenhuma dúvida com relação ao que precisa ser desenhado e como isso deverá ser animado depois.
Da mesma forma, é importante que o roteirista (também sou eu, mas tendo a dividir este papel com mais alguém) assegure que o que ele escreveu foi entendido e a mensagem não se perderá na “tradução” pro meio visual.
E, apesar de eu ter brincado no item 4 ali em cima, é importante que os três ofereçam opiniões construtivas e soluções criativas para os problemas que cada cena apresenta – mesmo que algo proposto esteja além do nosso alcance no momento, em termos técnicos, podemos encontrar um meio termo ou até mesmo ir discutindo e chegar em uma solução que nenhum de nós havia contemplado até então.
Tá, todo esse falatório é legal, mas como é um storyboard do Enraizando, afinal?
Acredite se quiser, eu ainda tenho os originais:

Hoje em dia, usamos um modelinho padrão aqui, com 6 quadros por página e duas linhas para anotações embaixo deles, mas durante muito tempo fizemos tudo no formato acima, em que eu desenhava os 9 quadros em cada página (sem régua, como é evidente) e partíamos dali.

Voltando às páginas que coloquei mais acima, elas trazem algumas curiosidades bem interessantes.
Primeira e mais aparente: se você não participou da elaboração daquilo e/ou não viu o episódio pronto (e, se for este o caso, faça-nos esse favor), é bem possível que tudo que está desenhado ali pareça um tanto… confuso.
Porém — e eu peço razão para me gabar um pouco aqui, mas o Welligton pode confirmar o que eu vou dizer — eu sou muito bom em pegar um rascunho que, a princípio, não parece grande coisa, e criar, a partir dele, um desenho bem mais elaborado.
Foi assim com as ilustrações que fazem parte da nossa identidade visual, por exemplo:

De volta às curiosidades, a segunda delas seria: repare que o comecinho, como foi desenhado, é meio diferente do início do vídeo:
Basicamente, eu estava ilustrando (ou talvez já estivesse animando, sei lá) e percebi que o texto não estava alinhando exatamente com o que fizemos no storyboard — por isso, joguei o globinho lá pro final da coisa toda; em seguida, tirei o “Ah, eu tô maluco” que os personagens falariam — porque achei que ficaria bobinho demais; depois, cortei o lance da bola quicando na tela e desenhando o logotipo do Enraizando – daria trabalho demais pra fazer isso “na mão” (não tínhamos nenhum plugin de física, como o Newton, pra fazer isso automaticamente) e eu não tinha tempo pra ficar “polindo” essa sequência até ela ficar boa como deveria (eu ainda tentei escapar de ter que desenhar vários personagens diferentes, mas não deu certo — detalharei isso mais adiante).
Terceira — e talvez mais importante — curiosidade: repare que as “pessoinhas” desenhadas ali têm cabeças e corpos “normais” (tá, talvez nem tão normais assim, mas pelo menos estão separados). Isso ocorre porque eu ainda não tinha criado o estilo dos nossos personagens – aliás, nós nem tínhamos a ideia de criar um modelo padrão para os personagens do Enraizando.
Acho que essa revelação bombástica (ou nem tanto) é um bom lugar para encerrarmos por hoje. No próximo episódio nós retomamos direto na fase de ilustração.


